quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Corinthians na Libertadores: - Há algo de teológico nisso?
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Por que sou um evangélico fracassado
Se alguém lê os textos que eu posto nesse blog já deve ter notado que eu nunca dei muita importância para esses meios de comunicação digital. Não fiz, nem quero fazer facebook. - Twitter? Fiz, mas nem aprendi a usar.Orkut? Sim, eu tenho um orkut, mas fiz quando era adolescente, nunca mais atualizei, minha prova disso é que nas fotos que lá postei ainda eu estava magro, pode reparar, desde a última foto que postei até hoje já engordei quase uns vinte quilos... rs rs.
Não falo isso com orgulho, apenas quero deixar claro que não me dou bem com a era digital, talvez eu devesse ter nascido a uns cem anos atrás, assim não teria me irritado tanto com todas essas coisas que acho e sempre achei, uma tremenda babaquice... Bem, na verdade babaquice não resume, eu diria que por um lado, é coisa de playboy que não tem o que fazer, daí fica se gabando das viagens que realiza, das coisas chiques que costuma fazer. Ou, por outro lado, é coisa de pobre que não se enxerga, fica postando fotos de seus ridículos "programinhas de fim de semana" e apresentando sua família feia para quem não quer conhecê-la.
Bom, meu objetivo não é ficar criticando o estupro da privacidade que os jovens realizam para si mesmos. Não, de jeito nenhum, caso eles sejam felizes mostrando fotos de seu churrasquinho de laje, ou os ricos gostam de ostentar sua pompa ainda que isso os exponho a um possível sequestro, tudo bem, todos tem o direito disso. Eles que usem e abusem dessa liberdade - ou prisão - que a era digital lhes oferece. O fato não é esse.
O fato é que embora eu ache esses meios de comunicação tão babacas, eu mesmo me submeti a fazer um blog, e posto alguns textos de vez em quando. Então cai em contradição? - Sim! E:: - Não! Sim, pois as vezes me corre na mente que blog é uma coisa de fracassados que não conseguem publicar seus textos, daí ficam escrevendo um monte de babaquice e bombardeando seus contatos de e-mail com as informações a respeito de suas novas postagens nos seus respectivos blogs, geralmente são informações absolutamente inúteis. Bom, para esses caras que bombardeiam a caixa de mensagens de seus amigos com informações a respeitos de suas novas postagens, eu digo: - Ninguém quer saber! (embora eu mesmo tenha feito isso, rs rs peço desculpas, se o leitor tenha recebido algum).
Por outro lado, eu disse "não", pois ainda que eu odeie os blogs, esse me parece um meio de transmitir minha mensagem de maneira criativa e livre, sem nenhuma editor retardo que fique me censurando. Também é uma oportunidade de demonstrar o que eu penso para o mundo todo, ainda que o que eu queira escrever seja apenas um desabafo, uma coisa pessoal. uma idiossincrasia imbecil. Embora eu ache interessante que os textos postados que obtém o maior número de leitores são os textos mais paupérrimos - rs rs, talvez esse quebre todos os recordes! No meu blog eu geralmente publico textos ruins demais para serem publicados e bons o bastante para não serem jogados no lixo.
Apesar de tudo isso ainda tenho um blog e publico nele apesar de tudo. Pois também tenho direito de minhas imbecilidades, como todos as outras pessoas tão idiotas quanto eu. Mas o meu proposito não era criticar os blogueiros do povão - embora meu espírito crítico me leve a criticar todas as coisas. Não! Meu objetivo era apenas justificar a escrita desse texto - embora eu saiba que se alguém tenha lido até aqui já está prestes a desistir.- pois pretendo falar de minha vida fracassada como evangélico, ainda que isso seja um assunto pouco interessante.
Bom... vamos lá. Caso alguém se aventure a continuar lendo, já assumo desde já que para escrever esse texto tive que aproveitar um momento de embriaguez, pois nessa noite resolvi me embriagar após ler mais de cem páginas de um livro chatíssimo do Paul Ricoeur - ô cara chato! - caso eu não me embriagasse acho que não dormiria direito, teria delírios!. Além do que, a embriagues nos expõe à ridícula sinceridade, à horrenda franqueza que nossa sanidade obscurece por meio de uma polidez mesquinha colorida de moralismos baratos. Caso o caro leitor que não beba até o ponto da embriagues, tenha o fantasioso testemunho de uma vida hipócrita a velar, se mantenha assim. Pois a embriagues é a sanidade! Ó leitor não dado ao vinho, mantenha-se abstinente da verdade que o liquido sagrado pode lhe proporcionar,,, rs rs.
Então... a vida de quem se torna crente logo cedo numa igreja pentecostal não é fácil não. Em primeiro lugar a gente fica ouvindo aquele monte de testemunho das pessoas que se converteram depois de velhos e fizeram tudo quanto é putaria em sua vida antes da conversão, enquanto que a gente mesmo não tem nem sequer uma aventura para contar, daí eu descobri: "Pior do que fazer e se arrepender é nunca ter feito". Mas, além disso, tem uma baita cobrança que todos impõem encima de você, muita gente diz: "Ah se eu tivesse me convertido nessa idade eu teria aproveitado todo meu tempo para servir a Deus". Quando somos jovens, nós acreditamos nesse tipo de coisa, mas é obvio que é tudo mentira, esses safados são pecadores assíduos, gostam do erro, se mantem errantes na igreja ou se desviam para voltarem a cometer seus erros.
Eu me converti na Assembléia de Deus com onze anos de idade e acreditei em tudo isso durante muitos anos de minha vida, posso dizer que só me ferrei. Pois nenhum desses caras sabiam o que é estar numa igreja evangélica durante a adolescência. Mas como eu tinha "temor" de Deus e medo do inferno me mantive fiel à postura idealista que a igreja propunha.
Por falar em inferno e céu, eu comecei a ter visões dessas coisas quando eu tinha doze anos, daí eu confiei na minha intuição e me mantive "firme", ainda que as tentações adolescentes - na verdade hormonais - me assolassem. Pois, em minha mente eu era mais atentado que os demais, visto que eu tinha um chamado ministerial para o pastorado, conforme um "irmão" afirmara que Deus lhe havia revelado.
Eu aguentei sete anos nessa igreja, mas teve um momento que eu não aguentei mais tanta petição de dinheiro e resolvi mudar de igreja, comecei a frequentar a igreja da cidade vizinha, Jundiaí. Nessa cidade o pastor era um conhecido teólogo de minha denominação, ele poderia me encaminhar para um bom seminário de teologia, e não ficaria insistindo em pedir tanto dinheiro do povo. - Engano meu! Esse pastor me disse que eu não deveria estudar, se não fosse no Rio de Janeiro, único lugar onde a Assembléia de Deus tinha um projeto de faculdade. Além do que o dinheiro era o que mais importava em sua igreja, onde todos membros eram ricos, em vista de meu povinho da pobre e oprimida cidade vizinha chamada Várzea Paulista, onde eu morava e moro até hoje..
Eu até ouviria o conselho desse pastor caso eu tivesse condições de ir para o Rio, mas eu não tinha. A essa altura, meus dezoito anos, eu trabalhava como repositor em Supermercado e pagaria meu seminário com o dinheiro que dali recebia, embora o pastor tivesse projetado em mim um dos jovens abastados, filhos dos empresários da igreja que ele dirigia.
Então eu achei que a Assembléia de Deus não era mais lugar para mim, embora eu fosse usado nos dons, falasse em línguas, eu não conseguia mais aceitar toda aquela bagunça e roubalheira. Então resolvi procurar uma igreja tradicional, pois havia começado a frequentar uma faculdade teologia por conta própria.
- A presbiteriana é muito chata, batiza crianças e não acredita nos dons; - A luterana é boa demais para mim, a ponto de não existir nem sequer uma em minha cidade miserável; - Metodista? Eu nunca tinha visto uma igreja dessa denominação. - Ir para outra igreja pentecostal poderia ser "sair do fogo para pular na frigideira"; - A batista é uma boa... - Mal sabia eu o destino que me esperava
Entrei na batista e me senti muito bem por lá no primeiro ano, embora não fosse a mesma coisa, pois não havia um grupo de jovens que evangelizava e se reunia para orar. Diferentemente da Assembléia, na Batista quem prega é só o pastor, agente não tinha oportunidade nem para dar testemunho. Além do que eu tive que ficar vários meses sem tomar ceia, enquanto não fui aceito por aclamação, não me deixaram participar do corpo de Cristo.
Eu suportei tudo, levei a diante minha vida babaca de evangelical, até uma crave crise devido ao fato de eu não ter dado o dizimo. O pastor me chamou para conversar e me disse que caso eu não desse o dizimo eu não poderia dar aula na escola dominical, e disse que em sua opinião quem não dava o dizimo, nem se quer era convertido. Fiquei muito triste, mas no fundo concordei com o pastor, naquela época eu era dizimista, eu ganhava uns de quatrocentos reais e pagava trezentos e quinze de faculdade, mas mesmo assim tentava dizimar, o fóda foi que bem no mês que puxaram minha capivara eu falhei com o dizimo.
Suportei esse tapa na cara para o bem do reino de Deus, mas não aguentaria muito tempo, poucos meses depois o pastor me chamou para uma reunião e disse que minha faculdade não valia de nada, caso eu quisesse ser pastor deveria procurar uma faculdade de minha denominação, embora isso não esteja em nenhuma confissão de fé batista, em nenhum regulamento denominacional, ele exigiu isso de mim quando eu tinha uns vinte anos.
Assim eu fui impedido da obtenção do titulo de seminarista. Curioso que nessa época eu era bastante amigo de meu pastor, ele botava fé em meu ministério, a princípio eu não compreendi por que ele fazia isso comigo. Mas depois eu lembrei que um dos líderes de minha igreja, um empresario que era o patrão de boa parte dos membros de minha congregação, além de ser o responsável de boa parte da renda de nossa igreja, era também tido pelos crentes locais como o mais inteligente e mais respeitado da igreja, devido a ser um de seus fundadores.
Eu fiquei muito triste com o pastor, mas compreendi que ele era um pau mandado desse cara, afinal a mulher do pastor estava gravida e ele estava em nossa congregação fazia pouco tempo, precisava obedecer a liderança para garantir sua permanência.
O fato foi que eu aguentei mais um ano nessa igreja, mesmo contrariado continuei frequentando os cultos, mas não tive mais a freqüência em todos os cultos, cada vez mais fui desanimando a ponte de ir uma vez por mês, ou até menos.
Isso não ficaria assim, meu pastorzão me chamaria para conversar. Ele estava reparando que eu não ia no culto, pois só havia umas sessenta pessoas na minha igreja, e acho que ele não tinha muito o que fazer, além de ficar reparando quem vai na igreja ou não. Eu pensei que ele ia ler alguns versículos para mim e me chamar para orar, mas não, ele me destruiu, disse que nem crente eu era - a despeito de minha castidade sexual, de meu testemunho diante de todos e de minha inquestionável integridade como pessoa, blá, blá, blá (se Jesus voltasse eu teria subido, rs rs) Bom, meu pastor não ligou para nada disso, sua opinião era: - "Quem falta nos cultos não é crente". Então me disse que caso eu quisesse continuar assim seria melhor eu procura outra congregação.Eu entendi que não era mais bem aceito naquele lugar, saí de lá e nunca mais pus meu pés nessa igreja,
Como eu era um teólogo eu não poderia ficar sem igreja, isso poderia custar caro para meu futuro, então me membrei em uma igreja Batista de Jundiaí, na qual o pastor era meu amigo. Não posso dizer que eu não tentei, sim eu tentei muitas vezes ser um crete acido em todos os trabalhos da igreja, mas não consegui. A contrariedade à ideia de igreja tomou conta de mim de uma tal forma que não consegui mais ser crente embora eu vá na igreja de vez em quando e goste muito do pastor. Talvez eu volte a ser crente um dia, não me privo desse direito, mas por enquanto só Deus sabe do futuro.
Bom... essa história inconclusa é a narrativa de uma trajetória evangelical fracassada, não por falta de tentativas, tentei de muitas maneiras diferentes, mas não consegui de jeito nenhum. Se alguém quer saber por que não sou crente mais, a resposta ta aí. Nunca tive crise de fé, meu grande e único problema sempre foi a igreja. Igreja é uma chatisse, abra o olho! .
domingo, 27 de novembro de 2011
O satirismo do Apóstolo Paulo conforme a teoria dos Gêneros de Bakhtin
*Uma versão completa e acadêmica desse texto está na revista digital Espiritualidade Libetária nº 3 (clique no link a baixo) http://espiritualidadelibertaria.wordpress.com/2011/07/20/revista-eletronica-espiritualidade-libertaria-n-3-1-sem-2011/
Mikhail M. Bakhtin e a "Metodologia das ciências humanas"

terça-feira, 30 de março de 2010
RESENHA CRÍTICA DO LIVRO O PROBLEMA DO SOFRIMENTO.

Em O problema do sofrimento C.S. Lewis escreve em seu estilo tradicional, criando silogismos imensos e as vezes circulares; vagando em diferentes áreas do saber, mas sem estar preso a nenhuma delas, daí surge a sua fama de “intelectual evangélico” e livre pensador.
domingo, 24 de janeiro de 2010
A conversão de Jürgen Moltmann.

Após a morte de Paul Tillich e Emill Brunner, entre outros grandes expoentes da teologia contemporânea, Jürgen Moltmann passou a ser popularmente conhecido como “o maior teólogo vivo” e ainda mais como: “o ultimo dos grandes teólogos”.
Moltmann é pastor da Igreja evangélica da Reforma, estudou na Universidade de Gottingen e doutorou-se em teologia. De 1958 a 1963 foi professor na Escola Superior da Igreja de Wuppertal. De 1963 a 1967, professor de Teologia Sistemática na Universidade de Bonn e depois passou a atuar como professor de Teologia Sistemática na Universidade de Tubingen e como presidente da Sociedade de Teologia Evangélica.
Em sua teologia destacam-se principalmente três pontos:
1. A esperança cristã: idéia expressa principalmente em sua obra Teologia da Esperança, nesta obra o teólogo alemão destaca que “a esperança não é algo que se acrescenta ao cristianismo, mas sim, uma de suas partes integrantes”, o cristão tem a tarefa de viver numa situação aparentemente paradoxal de “esperar e fazer o possível para que o Reino de Deus venha logo” conforme afirma 2 Pe 3.12. O futuro glorioso no qual Deus estabelecerá seu Reino deve ser aguardado com paciência, porém os cristãos devem fazer de tudo para que as características deste Reino, que são a justiça, a paz e igualdade, sejam antecipadas para este mundo. Daí surge a importância do envolvimento do cristão na política e no ativismo de movimentos em defesa da natureza e de causas humanitárias.
2. Teologia da Cruz: principalmente nas obras O Deus crucificado, Trindade e Reino de Deus, uma contribuição para a teologia e O caminho de Jesus, Moltmann apresenta o Deus dos cristãos de maneira diferente dos Pais da Igreja, que se baseando na filosofia grega, principalmente na idéia do Uno Inefável de Platão e do Motor imóvel de Aristóteles, esses Pais se esqueceram da forte expressão pessoal do Yahweh da Bíblia Hebraica. Moltmann afirma que no sacrifício de Cristo na cruz o que ganha destaque não é a ira de Deus derramada sobre Cristo, como afirmou a teologia medieval e mesmo a reformada, nem tampouco o pagamento de uma divida jurídica como afirmou Anselmo, mas toda a ênfase deve estar no amor de Deus que expressou através de seu auto-rebaixamento, incluindo-se a si mesmo entre as criaturas, e de seu posicionamento como vitima abandonada na cruz, compartilhando o sentimento de abandono com todas as vitimas humanas que passam por esta situação, é desta maneira que ele se mostra Todo-Poderoso e não da maneira despótica que o ser humano costuma imaginar.
3. O Espírito Santo como Fonte da Vida: em suas obras pneumatológicas: A Fonte da Vida, o Espírito Santo e a teologia da Vida; O Espírito da Vida: Uma Pneumatologia integral e A igreja no poder do Espírito Santo. Ele apresenta a Pessoa do Espírito Santo não como uma forma de onipresença de Deus, mas sim como a Fonte da Vida, isto quer dizer aquele que apesar de sua essência pessoal, se manifesta através da força que anima e mantém tudo o que existe, dialogando com as teologias panenteistas de teólogos que lutam em defesa da natureza. Além disto, os carismas que estão intimamente relacionados com a pessoa do Espírito Santo devem operar para que assim cooperem para o adiantamento das realidades que se concretizarão plenamente no Reino de Deus. O Espirito é a força que anima a vida e para a vida de maneira que sempre se opõe a políticas ditatoriais ou sexistas e a destruição do meio ambiente.
Este breve descrição da teologia de Jürgen Moltmann é indispensável para que se conheça seu testemunho, pois ambos: testemunho e teologia estão intimamente relacionados, talvez seja por isso que em suas obras Moltmann mais de uma vez cita o teólogo Gustavo Gutierrez quando diz: “só a prática confirma a teoria”.
Jürgen Moltmann nasceu em Hamburgo no ano de 1926, membro de uma família secularizada da Alemanha, neto de um grão-mestre da maçonaria. Em sua juventude se fascinou pelos recentes desenvolvimentos da física e galgou a carreira de físico e matemático, contudo sua entrada na faculdade foi postergada devido a sua filiação ao exercito alemão aos seus dezesseis anos. Ao partir para a guerra levou consigo apenas os poemas de Goethe e as obras de Nietzsche.
No campo de batalha Moltmann conheceria os terrores da morte, vendo muitos dos seus companheiros sendo mortos e sua cidade sendo destruída em 1943. Em seguida a destruição de sua cidade Moltamann sobrevive e é levado a um campo de prisioneiros de Guerra na Bélgica.
Durante o ataque a sua cidade, Moltmann participou das forças antiaéreas e viu um companheiro ser vitimado ao seu lado e sua vida escapar por pouco. Ele chegou a afirmar: “Aquela bomba era para mim”. Conforme afirma o próprio Moltmann sua teologia começa justamente neste momento, pois foi aí que ele teve o ponto mais importante de sua experiência de conversão, assim como Agostinho tivera sua experiência no jardim e Lutero durante a tempestade quando cai um raio ao seu lado ou quanso subia de joelhos as escadarias de uma cátedral de Roma. Em todos os três a experiência é semelhante a uma espécie de insight, uma luz que repentinamente se acendeu para eles.
No caso de Moltmann ao ver seu amigo ser exterminado por uma bomba ao seu lado ele clama: “Meu Deus onde estás?” embora até então nunca tivesse acreditado nesse Deus. Está experiência, e toda a crise psicológica e espiritual que ele enfrenta posteriormente, está descrita detalhadamente na obra a Fonte da Vida: o Espírito Santo e a Teologia da Vida (2002, P.10 ss.).
Após ver seu amigo morrer diante si, sua cidade estar devastada e com mais de 40.000 concidadãos mortos, contemplar os terrores dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau e sua particular experiência depressiva de prisioneiro de guerra, chegaria a perguntar-se: “Por que eu sobrevivi? Não seria melhor que eu também tivesse morrido?” E também afirmou: “é preciso suportar o fardo do luto”; “A sobrevivência não é apenas uma dádiva mas uma incumbência”; “É bom viver porém é duro ser um sobrevivente.”
Como prisioneiro de guerra esteve primeiramente na Bélgica no “miserável acampamento 2226 em Zedelgem”, depois na Escócia em Kilmarnock e finalmente na Inglaterra em Norton Camp a partir de julho de 1946. Para descrever sua experiência Moltmann cita Gn 32, 25-32, onde está descrita a batalha de Jacó com o Anjo. Pois “luta” era a melhor definição para a situação a qual enfrentava.
Em uma obra que é fruto de sua madures teológica: O Espírito da Vida: Uma Pneumatologia integral (versão acadêmica da obra A Fonte da Vida: o Espírito Santo e a teologia da vida.), Moltmann discorre sobre a teologia da “experiência” (1999, PP 29-47), embora ele relacione o assunto com os grandes expoentes da teologia liberal e pós-liberal como Scheleimacher e Barth, não é isto que nos interessa aqui, mas sim sua compreensão de que a experiência, como tal, é algo que está desvinculado ao tempo, todas as experiências permanecem em nós embora nem sempre nos damos conta disto.
Talvez, Moltmann tenha começado a se dar conta deste fato no Acampamento de prisioneiros quando permanecia acordado a noite e quando perdeu as esperanças, pois os poemas de Goethe e seu Fausto não lhe diziam mais nada, seus heróis: Einstein e Heisenberg e seu sonho de ser matemático e físico não tinham mais sentido nenhum. No acampamento ele se perguntava: “Para que tudo isso?” As sensações da guerra continuaram a aterrorizar-lhe grandemente por pelo menos mais cinco anos, também ocorreu-lhe a perca de sentimento por sua pátria, e ao ver as fotos de Auschwitz-Birkenau notou pelo que ele tinha batalhado.
Conforme ele afirma, foram dois os elementos que transformaram sua vida, a Bíblia e o encontro com pessoas. Através da Bíblia ele se identificou com os salmos de lamentação como o 39 e principalmente com a narrativa da paixão, onde Cristo fica abandonado na Cruz e clama: “Meu Deus por que me abandonaste?” Moltmann passou a crer que alguém compartilhava sua dor e o compreendia, e embora não tomasse uma decisão como se exigia dele, “Jesus o encontrou no buraco negro de sua alma”, e em suas entrevistas mais recentes continuaria a afirmar que foi Jesus que o encontrou e não ao contrário.
A atitude de pessoas, como os mineiros e suas famílias de Kilmarnock, também lhe surpreendeu muito, pois foi tratado por eles com cordialidade, os prisioneiros alemães receberam o perdão mesmo sem pedirem, isto lhes possibilitou a sobrevivência a pesar das terríveis lembranças e do remorso. A primeira conferencia da Missão Cristã Universitária viria a acentuar ainda mais esse sentimento de perdão, pois nesse evento os ex-guerrilheiros puderam fazer refeições, orações, cantar e ser aceito como irmãos por jovens cristãos do mundo inteiro. Contudo um outro encontro viria a selar o seu perdão, seria o encontro com jovens holandeses, Moltmann temeu porque participou de ataques aéreos a Holanda, mas aqueles jovens vieram ali para um encontro de amizade que faziam questão de ter com os ex-guerrilheiros, e durante a conversa compartilharam de seus sentimentos de forma muito amistosa.
O Norton Camp, um acampamento que servia como modelo para o mundo, proporcionou muito para a recuperação dos ex-guerrilheiros, pois oferecia toda uma infra-estrutura de reabilitação, possuía uma biblioteca doada pela Associação de Moços Cristãos, a qual possuía obras de variados temas, após as experiências referidas Moltmann aproveitou muito do que a biblioteca tinha a oferecer principalmente os livros de teológicos e cristãos, ali mesmo ele se decidira que seria um pastor, começaria um estudo intenso na escola teológica que funcionava com voluntários no acampamento, ele chega a afirmar que sua atividade intelectual nunca mais foi tão intensa como nesse período, pois o acampamento lhes oferecia um espaço de isolamento do mundo e do tempo (já que eles eram proibidos de ter relógio) semelhante a um monastério.
Assim Moltmann conclui seu testemunho afirmando que o seu destino cruel como prisioneiro de guerra “foi transformado em benção de riqueza imerecida” e afirma que como Jacó no lugar de Iaboq viu Deus face a face, e embora “mancando de uma coxa”, saiu abençoado. Reafirmando o que foi dito a cima a teologia de Moltmann se confunde com sua própria vida, pois como afirma Leonardo Boff “toda ela se orienta para a prática.”
BIBLIOGRAFIA.
ALECRIM DE ARAUJO, Giovanni Campagnuci. Vida, esperança e justiça. IN
MATOS, Alderi de Souza. Fundamentos da Teologia Histórica. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
MOLTMANN, Junger. A fonte da vida. São Paulo: Loyola, 2002.
MOLTMANN, Junger. O Espírito da vida: uma pneumatologia integral. Petrópolis: Vozes, 1998.
MOLTMANN, Junger. Teologia da Esperança: estudos sobre os fundamentos e as conseqüências de uma escatologia cristã – 3ª edição. São Paulo: Teológica / Edições Loyola, 2005.
MOLTMANN, Junger. The blessing of Hope: The theology of Hope and the full gospel of life.
MOLTMANN, Jurgen. El Dios cricificado. Salamanca: Sigueme, 1975.
MOLTMANN, Jurgen. O caminho de Jesus: uma cristologia com direções messiânicas. São Paulo: Academia Cristã, 2009.
SITES
http://juninhoacura.blogspot.com/2009/01/entrevista-com-jrgen-moltmann.html
http://prasinal.blogspot.com/2007/05/jrgen-moltmann-uma-entrevista-ler.html
Pesquisa realizada dia 23 de abril de 2009

