quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Corinthians na Libertadores: - Há algo de teológico nisso?


Resolvi postar mais este texto hoje, numa noite de angustia profunda, mais uma vez após uma bebedeira – confesso. Porém, dessa vez, tenho um motivo concreto do qual me lamentar! Não são mais questões particulares da minha vidinha medíocre de acadêmico pobre que vive no interior do estado de São Paulo. Nem direi nada a respeito de minhas dúvidas ou pitacos ontológicos. Tampouco é a respeito de algum motivo que envolva questões existenciais da vida humana. Não... Eu não ousaria um meio de comunicação tão esdrúxulo para falar a esse respeito, embora eu esteja embriagado a tal ponto!
A questão que gostaria de tratar está relacionada, tanto com uma motivação intrínseca em fundamentos folclóricos, herdados por meios inconscientes na estrutura intelectual humana, quanto com um motivo pragmático, perceptível e visível ao olho nu de qualquer criatura que usa os dez por cento de seu cérebro assistindo televisão algumas vezes por semana.
Se trata – peço que o leitor não menospreze minha causa, nem zombe do motivo de minha angustia, ao menos até conhecer toda minha argumentação – de uma “causa última” relacionada com o time de futebol para o qual eu torço – sim confesso, Sport Clube Corinthians Paulista, e de sua não conquista de um título em especial, na verdade, o último, o único que lhe falta: a Taça Libertadores da América.
Bom... em primeiro lugar não me sinto envergonhado de escrever sobre tal assunto, nem temo a zombaria das torcidas rivais uma vez que nenhuma delas tem cacife para isso. Por que não? Vou explicar, Em primeiro lugar Santos nem se quer é um rival do Corinthians em primeira instância, pois as motivações que constituem um derby estão relacionadas com a cidade dos times que se confrontam, o rival do Santos, na verdade é a Portuguesa Santista, não o Corinthians! Caso eles considerem o Corinthians rival, eles que alimentem essa ilusão, o Timão tem conterrâneos com os quais se preocupa muito mais, inclusive o Juventus..
Quanto ao São Paulo, por que os são paulinos não podem zombar legitimamente do Corinthians por não ter conquistado uma taça libertadores? Eu direi já! O motivo para tal, está diretamente relacionado com a existência do “São Paulo Futebol Clube”, sua sobrevivência, o leitor que não conhece a história procure na Wikipedia, ou em qualquer porra assim, a história do São Paulo. Esse clube, embora, hoje em dia ostente suas posses e seus títulos, só existe devido a esmola que Corinthians e Palmeiras lhe deram. Amigo leitor, meu time já passou por muita humilhação, derrotas para rivais, rebaixamento, coisa e tal... mas nunca, nunca mesmo, passou por uma vergonha dessas. – Esmola! Puta que pariu, ao menos fossem gratos, reconhecessem que comeram da migalha dos dois grandes clubes paulistanos!
E o Palmeiras? -  Bom... o Palemeiras tem ainda menos motivações legitimas pra zombar do Corinthians, tendo em vista que Santos e São Paulo são tri campeões e Palmeiras é apenas campeão, mas mesmo assim nossa argumentação vai mais longe, tendo em vista que faz apenas treze anos que eles ganharam seu único título, o Corinthians pode alcançá-los ainda esse ano. Isso sem falar que o momento de crise que eles passam – com seu técnico cheio de táticas obsoletas, e comprando confusão com todos os bons jogadores – os inibe de qualquer pitáco. Eles devem refletir sobre o momento crítico que passam, ficar calados e torcerem para ganhar ao menos um campeonato de par ou impar, já que não ganham nada faz tempo.
A grande realidade é que a razão da existência de todos esses times é o Corinthians, na verdade a meta de todos é superar o Corinthians! – Algo absolutamente impossível, pois tal superação não se baseia em motivações concretas, não é superar os títulos ou as conquistas, ou as posses, ou a torcida do Corinthians. Não, nada disso! A motivações deles estão imbricadas em profundas motivações folclóricas, das quais, nem eles mesmos tem clareza. Pois se o Corinthians fosse o fracasso do qual eles falam tanto, o que os levaria a tal ânsia de superá-lo como claramente se vê? Por quê Palmeiras, São Paulo e Santos têm como seu maior rival um único e mesmo time? Por que tanto odeiam o mesmo clube sem razões concretas que o justifiquem?
- Te direi a resposta, ainda que imprecisa e sabidamente incompleta – Ódio a opulência, ódio à grandiosidade, ao poder das forças populares em suas manifestações mais densas. Nada é pior para um são paulino ou para um santista ou, ainda mais, para um palmeirense, do que perder para o Corinthians – Não é mesmo? Rs rs... confesse meu caro leitor!
Mas e aí, o que tudo isso tem a ver com a argumentação inicial a respeito da Taça Libertadores da América, como dito a princípio?
- O que tem a ver, é que daqui a uma semana começa o tal campeonato, e mais uma vez, parece-nos que não será dessa vez que o Corinthians ganhará o título. Mais uma vez teremos que aturar as mesmas palavras insolentes de sempre. Novamente teremos esperança que em um futuro próximo chegaremos à competição em condições de ganhar – ainda que para isso tenhamos que esperar alguns anos mais. – Sim, sim, tudo isso é verdade! Mas e daí ? Os rivais que se fodam! A mídia que se foda também! Por que eles não zombam do Botafogo, do Fluminense, do Atlético MG, da Portuguesa e de tantos outros times? - Eu sei a resposta: “ só tem graça zuar dos grandes, só é legal zuar do Timão, né?
Bom ... novamente abrindo um ricochete em nosso texto... o que tudo isso tem a ver com a motivação religiosa que diz respeito à origem desse blog? O que isso tem a ver com a teologia, que se presume ao ler o título do blog?
Eu lhes direi o que tudo isso tem a ver. A relação está na abertura de novos “eons”, efetuada em cada vez que o Corinthians novamente disputa a Libertadores. Um período de tensão escatológica se abre, uma época de crise, de incompreensões. Por que? Por que, por um lado os fiéis torcedores torcem mais cheio de temores de que haja mais uma catastrófica desilusão; e por outro lado, todos os rivais, de todos os lugares desse Brasil, temem que o Corinthians de fato ganhe a Libertadores e lhes aleije do único motivo que ainda permite que zombem de seu grande, único e verdadeiro oponente futebolístico!
Sim, a cada vez que o Timão disputa uma edição da Taça Libertadores da América abre-se um período de tensão contraditória, pensamentos ambíguos, os que torcem contra, temendo que a vitória do Corinthians aconteça, e ao mesmo tempo, os que torcem a favor temem a mesma tragédia da eliminação aconteça novamente, como num eterno retorno. Mas independente de qualquer lado que esteja sua torcida é certo que um eon se abre e as manifestações apocalípticas ameaçam irromper a qualquer instante.  
Como corinthiano posso dizer, que a esperança já nos motivou a crer numa espécie de messias que garantirá a vitória para o Timão, Na década de 90 pensamos que fosse Marcelinho Carioca, Dinei, Luizão ou Edílson; na década passada pensamos que fosse Tevez ou Ronaldo Fenômeno. Mas agora não nos resta pensar muita coisa, basta aguardar a conclusão: - O enfadonho retorno ao mesmo lugar ou a irupção de uma nova era?
  
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Por que sou um evangélico fracassado


Se alguém lê os textos que eu posto nesse blog já deve ter notado que eu nunca dei muita importância para esses meios de comunicação digital. Não fiz, nem quero fazer facebook. - Twitter? Fiz, mas nem aprendi a usar.Orkut? Sim, eu tenho um orkut, mas fiz quando era adolescente, nunca mais atualizei, minha prova disso é que nas fotos que lá postei ainda eu estava magro, pode reparar, desde a última foto que postei até hoje já engordei quase uns vinte quilos... rs rs.
Não falo isso com orgulho, apenas quero deixar claro que não me dou bem com a era digital, talvez eu devesse ter nascido a uns cem anos atrás, assim não teria me irritado tanto com todas essas coisas que acho e sempre achei, uma tremenda babaquice... Bem, na verdade babaquice não resume, eu diria que por um lado, é coisa de playboy que não tem o que fazer, daí fica se gabando das viagens que realiza, das coisas chiques que costuma fazer. Ou, por outro lado, é coisa de pobre que não se enxerga, fica postando fotos de seus ridículos "programinhas de fim de semana" e apresentando sua família feia para quem não quer conhecê-la.
Bom, meu objetivo não é ficar criticando o estupro da privacidade que os jovens realizam para si mesmos. Não, de jeito nenhum, caso eles sejam felizes mostrando fotos de seu churrasquinho de laje, ou os ricos gostam de ostentar sua pompa ainda que isso os exponho a um possível sequestro, tudo bem, todos tem o direito disso. Eles que usem e abusem dessa liberdade - ou prisão - que a era digital lhes oferece. O fato não é esse.
O fato é que embora eu ache esses meios de comunicação tão babacas, eu mesmo me submeti a fazer um blog, e posto alguns textos de vez em quando. Então cai em contradição? - Sim! E:: - Não! Sim, pois as vezes me corre na mente que blog é uma coisa de fracassados que não conseguem publicar seus textos, daí ficam escrevendo um monte de babaquice e bombardeando seus contatos de e-mail com as informações a respeito de suas novas postagens nos seus respectivos blogs, geralmente são informações absolutamente inúteis. Bom, para esses caras que bombardeiam a caixa de mensagens de seus amigos com informações a respeitos de suas novas postagens, eu digo: - Ninguém quer saber! (embora eu mesmo tenha feito isso, rs rs peço desculpas, se o leitor tenha recebido algum).      
Por outro lado, eu disse "não", pois ainda que eu odeie os blogs, esse me parece um meio de transmitir minha mensagem de maneira criativa e livre, sem nenhuma editor retardo que fique me censurando. Também é uma oportunidade de demonstrar o que eu penso para o mundo todo, ainda que o que eu queira escrever seja apenas um desabafo, uma coisa pessoal. uma idiossincrasia imbecil. Embora eu ache interessante que os textos postados que obtém o maior número de leitores são os textos mais paupérrimos - rs rs, talvez esse quebre todos os recordes! No meu blog eu geralmente publico textos ruins demais para serem publicados e bons o bastante para não serem jogados no lixo.
Apesar de tudo isso ainda tenho um blog e publico nele apesar de tudo. Pois também tenho direito de minhas imbecilidades, como todos as outras pessoas tão idiotas quanto eu. Mas o meu proposito não era criticar os blogueiros do povão - embora meu espírito crítico me leve a criticar todas as coisas. Não! Meu objetivo era apenas justificar a escrita desse texto - embora eu saiba que se alguém tenha lido até aqui já está prestes a desistir.- pois pretendo falar de minha vida fracassada como evangélico, ainda que isso seja um assunto pouco interessante.
Bom... vamos lá. Caso alguém se aventure a continuar lendo, já assumo desde já que para escrever esse texto tive que aproveitar um momento de embriaguez, pois nessa noite resolvi me embriagar após ler mais de cem páginas de um livro chatíssimo do Paul Ricoeur - ô cara chato! - caso eu não me embriagasse acho que não dormiria direito, teria delírios!. Além do que, a embriagues nos expõe à ridícula sinceridade, à horrenda franqueza que nossa sanidade obscurece por meio de uma polidez mesquinha colorida de moralismos baratos. Caso o caro leitor que não beba até o ponto da embriagues, tenha o fantasioso testemunho de uma vida hipócrita a velar, se mantenha assim. Pois a embriagues é a sanidade! Ó leitor não dado ao vinho, mantenha-se abstinente da verdade que o liquido sagrado pode lhe proporcionar,,, rs rs.
Então... a vida de quem se torna crente logo cedo numa igreja pentecostal não é fácil não. Em primeiro lugar a gente fica ouvindo aquele monte de testemunho das pessoas que se converteram depois de velhos e fizeram tudo quanto é putaria em sua vida antes da conversão, enquanto que a gente mesmo não tem nem sequer uma aventura para contar, daí eu descobri: "Pior do que fazer e se arrepender é nunca ter feito". Mas, além disso, tem uma baita cobrança que todos impõem encima de você, muita gente diz: "Ah se eu tivesse me convertido nessa idade eu teria aproveitado todo meu tempo para servir a Deus". Quando somos jovens, nós acreditamos nesse tipo de coisa, mas é obvio que é tudo mentira, esses safados são pecadores assíduos, gostam do erro, se mantem errantes na igreja ou se desviam para voltarem a cometer seus erros.
Eu me converti na Assembléia de Deus com onze anos de idade e acreditei em tudo isso durante muitos anos de minha vida, posso dizer que só me ferrei. Pois nenhum desses caras sabiam o que é estar numa igreja evangélica durante a adolescência. Mas como eu tinha "temor" de Deus e medo do inferno me mantive fiel à postura idealista que a igreja propunha.
Por falar em inferno e céu, eu comecei a ter visões dessas coisas quando eu tinha doze anos, daí eu confiei na minha intuição e me mantive "firme", ainda que as tentações adolescentes - na verdade hormonais - me assolassem. Pois, em minha mente eu era mais atentado que os demais, visto que eu tinha um chamado ministerial para o pastorado, conforme um "irmão" afirmara que Deus lhe havia revelado.
Eu aguentei sete anos nessa igreja, mas teve um momento que eu não aguentei mais tanta petição de dinheiro e resolvi mudar de igreja, comecei a frequentar a igreja da cidade vizinha, Jundiaí. Nessa cidade o pastor era um conhecido teólogo de minha denominação, ele poderia me encaminhar para um bom seminário de teologia, e não ficaria insistindo em pedir tanto dinheiro do povo. - Engano meu! Esse pastor me disse que eu não deveria estudar, se não fosse no Rio de Janeiro, único lugar onde a Assembléia de Deus tinha um projeto de faculdade. Além do que o dinheiro era o que mais importava em sua igreja, onde todos membros eram ricos, em vista de meu povinho da pobre e oprimida cidade vizinha chamada Várzea Paulista, onde eu morava e moro até hoje..   
Eu até ouviria o conselho desse pastor caso eu tivesse condições de ir para o Rio, mas eu não tinha. A essa altura, meus dezoito anos, eu trabalhava como repositor em Supermercado e pagaria meu seminário com o dinheiro que dali recebia, embora o pastor tivesse projetado em mim um dos jovens abastados, filhos dos empresários da igreja que ele dirigia.
Então eu achei que a Assembléia de Deus não era mais lugar para mim, embora eu fosse usado nos dons, falasse em línguas, eu não conseguia mais aceitar toda aquela bagunça e roubalheira. Então resolvi procurar uma igreja tradicional, pois havia começado a frequentar uma faculdade teologia por conta própria.
- A presbiteriana é muito chata, batiza crianças e não acredita nos dons; - A luterana é boa demais para mim, a ponto de não existir nem sequer uma em minha cidade miserável; - Metodista? Eu nunca tinha visto uma igreja dessa denominação. - Ir para outra igreja pentecostal poderia ser "sair do fogo para pular na frigideira"; - A batista é uma boa...  - Mal sabia eu o destino que me esperava
Entrei na batista e me senti muito bem por lá no primeiro ano, embora não fosse a mesma coisa, pois não havia um grupo de jovens que evangelizava e se reunia para orar. Diferentemente da Assembléia, na Batista quem prega é só o pastor, agente não tinha oportunidade nem para dar testemunho. Além do que eu tive que ficar vários meses sem tomar ceia, enquanto não fui aceito por aclamação, não me deixaram participar do corpo de Cristo.
Eu suportei tudo, levei a diante minha vida babaca de evangelical, até uma crave crise devido ao fato de eu não ter dado o dizimo. O pastor me chamou para conversar e me disse que caso eu não desse o dizimo eu não poderia dar aula na escola dominical, e disse que em sua opinião quem não dava o dizimo, nem se quer era convertido. Fiquei muito triste, mas no fundo concordei com o pastor, naquela época eu era dizimista, eu ganhava uns de quatrocentos reais e pagava trezentos e quinze de faculdade, mas mesmo assim tentava dizimar, o fóda foi que bem no mês que puxaram minha capivara eu falhei com o dizimo.
Suportei esse tapa na cara para o bem do reino de Deus, mas não aguentaria muito tempo, poucos meses depois o pastor me chamou para uma reunião e disse que minha faculdade não valia de nada, caso eu quisesse ser pastor deveria procurar uma faculdade de minha denominação, embora isso não esteja em nenhuma confissão de fé batista, em nenhum regulamento denominacional, ele exigiu isso de mim quando eu tinha uns vinte anos.
Assim eu fui impedido da obtenção do titulo de seminarista. Curioso que nessa época eu era bastante amigo de meu pastor, ele botava fé em meu ministério, a princípio eu não compreendi por que ele fazia isso comigo. Mas depois eu lembrei que um dos líderes de minha igreja, um empresario que era o patrão de boa parte dos membros de minha congregação, além de ser o responsável de boa parte da renda de nossa igreja, era também tido pelos crentes locais como o mais inteligente e mais respeitado da igreja, devido a ser um de seus fundadores.
Eu fiquei muito triste com o pastor, mas compreendi que ele era um pau mandado desse cara, afinal a mulher do pastor estava gravida e ele estava em nossa congregação fazia pouco tempo, precisava obedecer  a liderança para garantir sua permanência.
O fato foi que eu aguentei mais um ano nessa igreja, mesmo contrariado continuei frequentando os cultos, mas não tive mais a freqüência em todos os cultos, cada vez mais fui desanimando a ponte de ir uma vez por mês, ou até menos.
Isso não ficaria assim, meu pastorzão me chamaria para conversar. Ele estava reparando que eu não ia no culto, pois só havia umas sessenta pessoas na minha igreja, e acho que ele não tinha muito o que fazer, além de ficar reparando quem vai na igreja ou não. Eu pensei que ele ia ler alguns versículos para mim e me chamar para orar, mas não, ele me destruiu, disse que nem crente eu era - a despeito de minha castidade sexual, de meu testemunho diante de todos e de minha inquestionável integridade como pessoa, blá, blá, blá (se Jesus voltasse eu teria subido, rs rs) Bom, meu pastor não ligou para nada disso, sua opinião era: - "Quem falta nos cultos não é crente". Então me disse que caso eu quisesse continuar assim seria melhor eu procura outra congregação.Eu entendi que não era mais bem aceito naquele lugar, saí de lá e nunca mais pus meu pés nessa igreja,
Como eu era um teólogo eu não poderia ficar sem igreja, isso poderia custar caro para meu futuro, então me membrei em uma igreja Batista de Jundiaí, na qual o pastor era meu amigo. Não posso dizer que eu não tentei, sim eu tentei muitas vezes ser um crete acido em todos os trabalhos da igreja, mas não consegui. A contrariedade à ideia de igreja tomou conta de mim de uma tal forma que não consegui mais ser crente embora eu vá na igreja de vez em quando e goste muito do pastor. Talvez eu volte a ser crente um dia, não me privo desse direito, mas por enquanto só Deus sabe do futuro.
Bom... essa história inconclusa é a narrativa de uma trajetória evangelical fracassada, não por falta de tentativas, tentei de muitas maneiras diferentes, mas não consegui de jeito nenhum. Se alguém quer saber por que não sou crente mais, a resposta ta aí. Nunca tive crise de fé, meu grande e único problema sempre foi a igreja. Igreja é uma chatisse, abra o olho!    .


domingo, 27 de novembro de 2011

O satirismo do Apóstolo Paulo conforme a teoria dos Gêneros de Bakhtin

*Uma versão completa e acadêmica desse texto está na revista digital Espiritualidade Libetária nº 3 (clique no link a baixo) 

http://espiritualidadelibertaria.wordpress.com/2011/07/20/revista-eletronica-espiritualidade-libertaria-n-3-1-sem-2011/

Mikhail Bakhtin elaborou sua própria teoria a respeito dos “Gêneros do discurso” (2010, pp. 261-306), e nessa teoria, assim como em suas demais, não há sistematização, tampouco há pretensão de uma listagem dos gêneros. Pois quando ele fala dos gêneros do discurso ele pretende salientar sua dimensão dialógica, ou seja, o fenômeno que ocorre na esfera dos interlocutores, no efeito do diálogo, que é uma corrente ininterrupta e constante de pergunta e resposta ad infinitum. Assim, para Bakhtin, as formas de gênero são infinitas, assim como são infinitas as formas de atividade humana, com as quais os gêneros sempre estão necessariamente relacionados.
Dessa maneira, Bakhtin compreende que o gênero do discurso se manifesta na comunicação através do tom da voz e através de uma série de códigos implícitos que são percebidos pelos interlocutores, mas que ficaria sem sentido para aquele que está fora do âmbito desse diálogo. Como aquelas piadas regionalistas, ou aqueles insultos que um amigo faz ao outro através de um xingamento que não é compreendido como ofensa, mas como expressão de laços íntimos de amizade ou familiaridade.
Pois, em um diálogo não há passividade nem no sujeito do discurso, tampouco no ouvinte, visto que, conforme Bakhtin:
“(...) toda compreensão plena e real é responsiva e não é senão uma fase inicial preparatória da resposta (seja qual for a forma que ela se dê). O próprio falante está determinando precisamente a essa compreensão ativamente responsiva: ele não espera uma compreensão passiva, por assim dizer, que apenas duble o seu pensamento em voz alheia, mas uma resposta, uma concordância, uma participação, uma objeção, uma execução, etc. (os diferentes gêneros do discurso pressupõem diferentes diretrizes de objetivos, projetos de discurso dos falantes ou escreventes)” (2010, p. 272).
Essas palavras de Bakhtin representam aquele mesmo processo que Carlo Ginzburg intitulou como “filtro deformador” em seu livro O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela inquisição (1997). Nesse livro, Ginzburg explica o processo hermenêutico, ou epistemológico, que ocorria através da leitura que um moleiro friuliano realizava de alguns escritos religiosos. Adaptando suas leituras a elementos de sua própria imaginação e de seu cotidiano, assim como as relacionava a outras leituras, mas que nada tinham a ver com aquilo que estava escrito propriamente nos livros consultados.
Portanto, as palavras que compõem um diálogo - seja ele manifesto através de leituras, comunicação verbal, inscrições em paredes, ou por qualquer outro meio que realize uma ligação comunicativa entre dois indivíduos - são sempre neutras. Pois possuem uma ambivalência intrínseca que só pode ser discernida pelo gênero discursivo, que é muito negligenciado pelos estudiosos de literatura em geral e especialmente pelos exegetas bíblicos, que normalmente só levam em conta o gênero literário.
Mais uma vez, conforme Bakhtin: “falamos apenas através de gêneros sem suspeitar que eles existam, pois eles nos são dados da mesma forma da língua materna” (2010, p. 282), pois através do gênero se torna possível adivinharmos o discurso alheio (idem, p.283). E, caso seja possível que se domine uma língua, sem que se domine os seus gêneros, estes se tornam indispensáveis para a compreensão mutua em um diálogo (idem, p.284), pois são eles que dão coesão à compreensibilidade de um enunciado (idem, p.286).
Esses fatos fazem com que seja impossível listar esses gêneros, principalmente por que surgem novos com o passar do tempo, como os que vêm sendo desenvolvidos nos meios de comunicação eletrônico, como torpedo sms, e-mail, chat, blog, etc.
Assim, tendo em mente o que queremos dizer quando falamos de gêneros do discurso, passamos a afirmar que o apóstolo Paulo em algumas ocasiões, realizou enunciados sob um gênero que intitulamos provisoriamente de satírico.
Provisoriamente, visto que o enquadramento de um enunciado, em um tipo especifico de gênero, não pode ser estanque, devido a sua multiplicidade de modelos e à dinamicidade do enunciado que varia de uma forma de discurso para outra com certa frequência e rapidez.
Chamamos de satírico por que parece ser o mesmo gênero discursivo que estava presente no gênero literário do mundo antigo chamado sátira menipéia, o qual parece ter sido o gênero da literatura carnavalizada por excelência, segundo um outro conceito bakhtiniano (Cultura popular na idade media e no renascimento – O contexto de François Rabelais, 2010).
Porém, estamos conscientes de que só podemos inferir que Paulo tenha dialogado sob esse gênero através de alguns apontamentos que realizaremos. Pois não ouvimos sua voz, para que soubéssemos em que tom ela pronunciara esses enunciados, tampouco sabemos a relação dele com seus oponentes. Mas sabemos, isso sim, da existência de um gênero que permitia que denúncias fossem realizadas através de enunciados que reviravam os valores tradicionais de ponta cabeça, mas sem atrair grandes acusações sobre quem os pronunciava, porque eram realizados através de um tom bem-humorado, que obviamente não era compreendido pelo seu interlocutor de forma literal, mas com certa dose de ironia e verossimilhança. Esse gênero, chamado sátira, será apresentado agora.
2. O mundo antigo e a sátira
No mundo antigo temos alguns exemplos de sátira que chegaram até nós. Não queremos relacionar o que estamos chamando de sátira com aquele gênero literário de Juvenal e Petrônio, o qual era uma manifestação de conservadorismo que zombava das inovações que mudavam os costumes romanos tradicionais.
A sátira que pretendemos relacionar com alguns enunciados paulinos é um gênero que rompe com as tradições estabelecidas através de um riso bem-humorado, o qual é conhecido especificamente como sátira menipéia,
Frederico de Souza Silva em sua dissertação de mestrado, Apocolocintose do divino Cláudio: tradução, notas e comentários (2008) apresentou catorze características da sátira menipéia, com base em: Problemas da poética de Dostoievski (1981, pp.114-118) de Mikhail Bakhtin, assim as parafraseamos:
1. Elemento cômico;
2. Liberdade de invenção do enredo e da filosofia;
3. Elemento fantástico, as vezes simbólico ou místico-religioso;
4. Mistura de elementos fantásticos com as camadas baixas da sociedade;
5. Liberdade das conveniências sociais;
6. Estrutura em planos – inferno, céu, terra, sobrepostos um a outro;
7. Ângulo do ponto de vista privilegiado;
8. Limítrofes com a loucura;
9. Cenas de escândalo;
10. “Alto e baixo” – contrastes agudos;
11. Elemento utópico;
12. Uso de gêneros [literários] intercalados;
13. Variedade de estilos;
14. Atualidade do tema – às vezes aparecem personagens ou temas contemporâneos bem conhecidos.
Através de três obras podemos apontar esse gênero no mundo antigo: Aboborificação do divino Cláudio, do filósofo cordobês Lucio Aneu Sêneca (4 a.C – 65 d.C), Diálogo dos mortos do prosador Luciano de Samosata (125 d.C – 181 d.C) e O asno de ouro do escritor romano Lucio Apuleio (125 d.C – 180 d.C).
3. O satirismo do apóstolo Paulo
Abaixo apontaremos dois momentos em que o apóstolo Paulo parece ter emitido discursos sob o gênero satírico ao longo da I Carta aos Coríntios.
I Corintios 1.18-31
18. Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem, mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.
19. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes.
20. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?
21. Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.
22. Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria;
23. Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos.
24. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus.
25. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
26. Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados.
27. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes;
28. E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são;
29. Para que nenhuma carne se glorie perante ele.
30. Mas vós sois dele, em Jesus Cristo, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção;
31. Para que, como está escrito: Aquele que se gloria glorie-se no Senhor.
Nesse texto, Paulo afirma que a palavra da cruz inverte os valores tradicionais, tanto os greco-romanos, quanto os judaicos. Quem perece a tem como loucura, quem a experimenta a tem como poder (dynamis) de Deus (v. 18) e sabedoria de Deus (v. 24).
Na seqüência da voz do profeta, segue um tom altamente injurioso, devido a sequência de perguntas que não quer ouvir resposta, mas apenas apontar a fraqueza do oponente (v. 20). E também devido à afirmativa de que Deus aniquilou a sabedoria e a inteligência, dando um outro tom ao enunciado do profeta Isaías (v. 19).
Pela sua sabedoria o mundo não conheceu a sabedoria de Deus (v. 21), por isso Deus quis salvar os fiéis através da loucura da pregação, pois mesmo a loucura e a fraqueza de Deus já são mais fortes que a sabedoria e a força dos homens.
A problemática se dá pelo motivo de que “loucura” e “escândalo”, que se manifestaram na cruz, repelem tanto os gregos, quanto os judeus e são atraentes apenas para as “coisas vis”.
Várias características desse trecho contribuem com nossa afirmativa de que esse seja um discurso de gênero satírico. Loucura e sabedoria, nesse contexto têm valoração contextualizada; o elemento cômico das perguntas injuriosas; o escândalo da cruz; o antagonismo valorado opostamente e os elementos místico-religiosos misturados com as camadas baixas da sociedade.
I Corintios 12.12-30
12. Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também.
13. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito.
14. Porque também o corpo não é um só membro, mas muitos.
15. Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo?
16. E se a orelha disser: Porque não sou olho não sou do corpo; não será por isso do corpo?
17. Se todo o corpo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato?
18. Mas agora Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis.
19. E, se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo?
20. Assim, pois, há muitos membros, mas um corpo.
21. E o olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem ainda a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós.
22. Antes, os membros do corpo que parecem ser os mais fracos são necessários;
23. E os que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra.
24. Porque os que em nós são mais nobres não têm necessidade disso, mas Deus assim formou o corpo, dando muito mais honra ao que tinha falta dela;
25. Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros.
26. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.
27. Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular.
Esse conhecido trecho bíblico se tornou símbolo da unidade eclesiástica. Pregadores dizem que para que uma igreja funcione bem ela deve funcionar como um corpo, onde cada membro efetua sua função em coerência com o restante do organismo.
Porém, o corpo do qual o apóstolo fala não parece tão modelar assim. Afinal, a orelha, o olho, o ouvido, o olfato e os pés e a cabeça são postos lado-a-lado, no que diz respeito a suas respectivas importâncias. Nenhum deles é mais importante que o outro, muito embora na tradição greco-romana a cabeça fosse o órgão gerenciador que se sobrepõe em função ao restante de todos os órgãos – como afirmou Platão, em Republica e Sêneca em Da Clemência, e também, particularmente interessante: as Cartas Deutero-paulinas (Efésios 1.22, 4.15, 5.23; Colossenses: 1.18 e 2.19).
Mais grotesco do que justapor a cabeça aos demais membros é afirmar que “os [membros] que reputamos serem menos honrosos no corpo, a esses honramos muito mais; e aos que em nós são menos decorosos damos muito mais honra” (v. 23). Assumindo a ambivalência dos órgãos genitais. Que ao mesmo tempo são desonrosos devido a sua função de expelir matéria impura do interior do corpo, também tem a mais nobre função, que é a de promover a vida.
Falar do corpo nesses termos na colônia romana do primeiro século chamada Corinto destoava dos discursos contemporâneos, tanto a respeito do corpo, quanto a respeito da sociedade. Com essa metáfora, o apóstolo deve ter feito alguns dos seus ouvintes darem risada.

4. Considerações finais
Através desse texto tentamos demonstrar uma semelhança de gênero discursivo, entre dois enunciados do apóstolo Paulo e um gênero literário do mundo antigo chamado “sátira menipéia”.
Mais uma vez asseveramos que não tentamos destacar semelhanças literárias, mas sim discursivas, segundo uma teoria de Bakhtin que julga necessária a compreensão do gênero discursivo para uma compreensão mais apurada do texto e sua mensagem.
Estamos conscientes do risco que corremos com tal aproximação, porém, achamos válida a tentativa de estudar os gêneros discursivos na Bíblia. Elemento que nunca esteve presente na metodologia exegética histórico-crítica, a não ser na obsoleta busca pela ipsissima vox, que apesar de buscar uma oralidade, não se sabe até que ponte essa oralidade se relaciona com os gêneros discursivos como aqui sugeridos. Pois o riso sempre foi suprimido pela seriedade que se impôs na cultura ocidental desde o período medieval. “Só as culturas dogmáticas e autoritárias são unilateralmente sérias” (Bakhtin, p.370).
Através desse gênero Sêneca afirmou que um deus (Cláudio) após sua morte foi feito escravo no inferno, e Paulo afirmou que a crucificação de um judeu manifestou a sabedoria de Deus a esse mundo.
Pretender dar uma conclusão a esse texto seria negar tudo o que o nosso referencial teórico, Mikhail Bakhtin, afirmou a respeito das ciências humanas e seria também uma contradição à nossa proposta inicial de apresentar uma metodologia pluralística e aberta para futuros incrementos. Assim sendo, que essa nossa proposta permaneça como uma coisa prenhe e inacabada e de múltipla interpretação. Caso o leitor não a leve a serio e menospreze o potencial dessa metodologia, ainda assim teremos conquistado nosso objetivo, pois o riso é a força que rompe as hierarquias e abre as portas para o nascimento do novo na cadavérica manifestação do velho.
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAKHTIN, Mikhail M. Cultura popular na idade media e no renascimento – O contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 2010.
______.Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
______. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010, pp. 261-306.
______. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1981.
______. Apontamentos de 1970-1971. In: BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010, pp. 367-392.
FARACO, Carlos Alberto. Linguagem & diálogo, as idéias linguísticas do circulo de Bakhtin. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.
FIORIN, José Luiz. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2006.
GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela inquisição – 9ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
SOUZA, Frederico da Silva. Apocolocintose do divino Cláudio: tradução e notas explicativas. São Paulo, 2008, Dissertação (Mestrado em Letras) Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP).

Mikhail M. Bakhtin e a "Metodologia das ciências humanas"


Nas sete páginas que compõem o texto: Metodologia das ciências humanas, presente na edição brasileira de Estética da criação verbal, traduzida diretamente do russo pelo professor Dr. Paulo Bezerra, o brevíssimo escrito Metodologia das ciências humanas (pp. 393-410), que está inserido na segunda parte do livro Estética da criação verbal[1], o pensador russo Mikhail Mikhailovich Bakhtin apresenta duas formas de “limite do conhecimento”, que são o “conhecimento da coisa” e o “conhecimento do indivíduo” (p.393).
O conhecimento da coisa está ligado ao interesse prático, à pura coisa morta dotada apenas de aparência. Em contrapartida o conhecimento do indivíduo é dotado de extrema vivacidade e dinamismo, sua característica principal, pode-se dizer que é sua configuração “dialógica”, nessa perspectiva tanto se conhece, como se dá a conhecer, seja qual for o objeto do pesquisador (p.394).
Tendo explicado os dois limites do conhecimento com suas premissas tendo como base a relação do pesquisador e seu objeto, o autor relacionará uma serie de conceitos a cada um dessas duas formas de limite. Ao conhecimento da coisa estão relacionados: “a exatidão” (p.395), “o interesse” (p.395), “a seriedade” (p.397), “o dogma” (p.401), “a coisificação” (p.402), “o monologismo” (p.402), e também – me parece – “o estruturalismo, em suas abstrações tautológicas, mecanicistas ou matematizadas”.Ao conhecimento do indivíduo, em contraposição ao conhecimento da coisa, o autor relaciona: “a liberdade” (p.395), “o riso” (p.397), “o dialogismo” (p. 401) e o “personalismo” (p.410).Contudo, afirma enfaticamente que “coisa” e “indivíduo” são apenas dois tipos de relação (p.407) “limites” e não substancias (p.404).
No que diz respeito á metodologia da ciência da religião – como me parece que seria possível nas demais áreas das disciplinas humanas – esses dois limites apresentados por Bakhtin são duas formas que os pesquisadores podem eleger ao se posicionarem diante de seu objeto de pesquisa. Tomando o seu limite como “coisa”, ou como “indivíduo”.
Nem um dos dois parece ser inferior ao outro, não há escala de valores entre eles, pois, ambos poderiam render bons resultados (pragmaticamente). Porém, enquanto um parece ser uma repetição, ainda que incrementada com novas contribuições, o outro parece ser um elemento que tem algo de autêntico, algo que o pesquisador doa de si para seu objeto e que o seu objeto lhe retribui. E no fim das contas o segundo limite parece ser mais arriscado que o primeiro.
Pois, ao deixar envolver-se na pesquisa parece que às vezes as delimitações entre pesquisa e pesquisador desaparecem, como no processo de dialogismo, onde não se sabe o que se herdou do discurso alheio, e o que de seu próprio discurso questiona a outrem, mas, sabe-se, com toda certeza, que o seu próprio discurso só existe para outros e devido a outros, tal processo resulta em riso e liberdade.
Enquanto isso, o “limite da coisa” dá muito mais conforto ao pesquisador se relaciona com ela, pois o dogma livra de preocupações individuais e de possíveis encrencas com interlocutores hostis. Todavia não há proximidade entre pesquisador e objeto, eles não se compartilham, a seriedade e o mecanicismo de seu relacionamento impedem o desenvolvimento de tal processo.
Então fica a possibilidade de escolha nas mãos do pesquisador no que diz respeito a abordar seu objeto, uma mais garantida, mas, menos empolgante e menos envolvente; outra mais arriscada, porém mais prazerosa e empolgante, pois no ato de pesquisa já se encontra a satisfação ainda que não se chegue às conclusões pretendidas.
Esse texto, apesar da curta dimensão, é muito profundo, pois sua forma fragmentar instiga nossa investigação e leva-nos a completá-lo com contribuições que fazem parte de nossas experiências particulares. Dizer se tal efeito faz parte do intento original do autor ou não, seria especulação ingênua, o que importa é a experiência reflexiva que o texto gera no leitor atento, a qual só pode ser fruída através da própria leitura sem intermediários.

[1] Esta segunda parte do livro de Bakhtin recebe o título de Adendo (pp. 261-422), onde estão reunidos alguns textos fragmentários e dispares do mesmo autor, os quais não vieram a ser publicados durante sua vida.

terça-feira, 30 de março de 2010

RESENHA CRÍTICA DO LIVRO O PROBLEMA DO SOFRIMENTO.


LEWIS, C. S. O problema do sofrimento. São Paulo: Editora Vida, 2006.


Em O problema do sofrimento C.S. Lewis escreve em seu estilo tradicional, criando silogismos imensos e as vezes circulares; vagando em diferentes áreas do saber, mas sem estar preso a nenhuma delas, daí surge a sua fama de “intelectual evangélico” e livre pensador.
Mas curiosamente, nessa sua obra, como na maioria das demais, C.S. Lewis não se reporta a nenhuma ciência, ele constantemente cita textos literários principalmente de autores ingleses mas não tem regularidade de pensamento nessas citações, não há hermenêutica nem pretensão de fazê-la. Lewis não faz teologia, pois apesar de citar a Bíblia esporadicamente (e com menos frequência que a literatura secular) nunca faz exegese de nenhum texto, apesar de C.S. Lewis dominar as ferramenta literárias, ele não se preocupa nem um pouco com a fundamentação de suas ideais; tão pouco cita os teólogos de destaque de sua época, apesar da efervescente discussão teológica que havia na época devido ao surgimento da Teologia Liberal.
Tão pouco se reporta a filosofia, seu pensamento não tem coerência, e só cita os filósofos da maneira que lhe convém, ou seja quando esses concordam com alguma de suas idéias. Mas em nenhum momento C.S. Lewis discorre sobre algum pensamento ou teoria filosófica de maneira mais profunda.
Curiosamente ele escreve sobre o “homem paradisíaco” (2006, pp.79-100), mas esse ser não existe em nenhum registro histórico e nenhum antropólogo de respeito fala disso. Essa sua invenção baseada numa especulação ingênua, faz com que ele caia em descrédito entre qualquer ciência humana.
A fama de C.S. Lewis, se deve, a seu modo de escrever que agrada aos evangélicos, a pesar de nem sempre ser tão evangelical assim. C. S. Lewis questiona a tradicional doutrina calvinista da depravação total, atribuindo-a ao demônio (2006, p.46). Talvez esse trecho passe desapercebido aos olhos evangélicos, que preferem ignorar esse ponto e exaltar outros.
Da mesma maneira, C. S. Lewis não acredita no pecado original, pois invés de acreditar em Adão e Eva da forma literal, como é tradicional aos evangelicais, ele prefere acreditar na sua própria invenção: o “homem paradisíaco” (2006, pp.79-100). Contudo, essas coisas passam desapercebidas aos olhos dos crentes fundamentalistas que o exaltam como intelectual cristão, pois ele transmite tudo numa linguagem pretensiosamente ingênua, se passando por inocente, para incutir nas mentes suas idiossincrasias como se fizessem parte de alguma corrente de pensamento estabelecido.
Mesmo sua descrição do numem parece errada diante da leitura do livro do teólogo alemão Rudolf Otto, pois para o alemão o numem atrai e repele, através de um sentimento contraditório e irracional característico da religião (2007, pp.37-39). No entanto C. S. Lewis só destaca o aspecto assustador do numem quando o descreve como “uma fera que está no cômodo ao lado” (2006, p.21ss). Estranho que C. S. Lewis não entenda uma idéia simples como esta, mais fácil acreditar que ele, por motivos pessoais, tenha a transmitido de forma alterada propositalmente.
Também é bastante estranho quando ele pretende falar sobre o céu em um dos capítulos de seu livro, e se entrete discorrendo sobre o sofrimento animal, sobre a possibilidade de vida eterna dos animais (2006, p.145-171). Essa especulação poderia se fundamentar caso se conformasse a causas humanitárias e ecológicas, mas não, ele quer discutir sobre a eternidade das almas dos animais!
Quando C. S. Lewis fala do Sofrimento Humano (2006, p. 101-124), no capítulo central da presente obra, deveria apresentar algo diferenciado das respostas tradicionais, já que essa é a pretensão sugerida desde o titulo do livro. No entanto, ele lança uma idéia bastante difundida, uma teoria padrão em qualquer segmento cristão conservador. Sejam católicos, ortodoxos gregos, evangelicais ou mesmo sectários, qualquer um concorda com a resposta de C. S. Lewis de que o sofrimento humano se relaciona com o livre-arbitrio, ele tomou essa idéia de Agostinho em Confissões, mas não cita sua fonte com dignidade, apenas faz referencia à obra.
Diante de tudo isso o que é louvável nesse livro? Qual a contribuição que traz aos cristãos? Qual o motivo que leva C. S. Lewis a ser aclamado com toda a pompa que os cristãos contemporâneos o louvam? Difícil responder. Ainda mais diante de vários outros intelectuais cristãos que são rejeitados pelos evangélicos, como Rubem Alves e Leonardo Boff que tiveram reflexões bem mais fundamentadas na realidade. A exaltação da literatura estrangeira deteriora a admiração dos livros de brasileiros que teriam muito mais a apresentar. Fora do cenário brasileiro poderia ser citada a obra de Jurgen Moltmann: Trindade e o Reino de Deus (2000) em que apesar de não ser o foco, o autor discorre de maneira muito mais prática e fundamentada sobre o sofrimento humano, relacionando-o o compartilhamento de Deus nesse sofrimento com a humanidade.
Assim a pesar da indicação desse livro para o aconselhamento pastoral efetuada na introdução, realizada por Carlos Caldas, acho que essa obra não merece respeito que vá além de sua valorização como um “passatempo evangelical”, uma literatura evangélica sem pretensões práticas.
O assunto aconselhamento merece ser levado mais a serio, um autor que como C.S. Lewis, ao discutir sobre o sofrimento acha tempo para falar de “animais e suas almas”, “homem paradisíaco” e “numem”, mas não discute sobre o sofrimento de forma prática como através da fome, da opressão política e da ignorância devido ao subdesenvolvimento. Ele não se refere nenhuma vez à colonização dos países europeus que é uma das maiores causas de sofrimento no mundo atual. Mesmo o sofrimento intra-pessoal, que é aquele do qual ele pretende discorrer, não parece ser outro, senão aquele que está relacionado com seus devaneios egocêntricos.
REFERENCIAS.
MOLTMANN, Jurgen. Trindade e o Reino: uma contribuição para a teologia. Petrópolis: Vozes, 2000.
OTTO, Rudolf. O sagrado. São Leopoldo/Petrópolis: Sinodal/Vozes, 2007.

domingo, 24 de janeiro de 2010

A conversão de Jürgen Moltmann.


Após a morte de Paul Tillich e Emill Brunner, entre outros grandes expoentes da teologia contemporânea, Jürgen Moltmann passou a ser popularmente conhecido como “o maior teólogo vivo” e ainda mais como: “o ultimo dos grandes teólogos”.

Moltmann é pastor da Igreja evangélica da Reforma, estudou na Universidade de Gottingen e doutorou-se em teologia. De 1958 a 1963 foi professor na Escola Superior da Igreja de Wuppertal. De 1963 a 1967, professor de Teologia Sistemática na Universidade de Bonn e depois passou a atuar como professor de Teologia Sistemática na Universidade de Tubingen e como presidente da Sociedade de Teologia Evangélica.

Em sua teologia destacam-se principalmente três pontos:

1. A esperança cristã: idéia expressa principalmente em sua obra Teologia da Esperança, nesta obra o teólogo alemão destaca que “a esperança não é algo que se acrescenta ao cristianismo, mas sim, uma de suas partes integrantes”, o cristão tem a tarefa de viver numa situação aparentemente paradoxal de “esperar e fazer o possível para que o Reino de Deus venha logo” conforme afirma 2 Pe 3.12. O futuro glorioso no qual Deus estabelecerá seu Reino deve ser aguardado com paciência, porém os cristãos devem fazer de tudo para que as características deste Reino, que são a justiça, a paz e igualdade, sejam antecipadas para este mundo. Daí surge a importância do envolvimento do cristão na política e no ativismo de movimentos em defesa da natureza e de causas humanitárias.

2. Teologia da Cruz: principalmente nas obras O Deus crucificado, Trindade e Reino de Deus, uma contribuição para a teologia e O caminho de Jesus, Moltmann apresenta o Deus dos cristãos de maneira diferente dos Pais da Igreja, que se baseando na filosofia grega, principalmente na idéia do Uno Inefável de Platão e do Motor imóvel de Aristóteles, esses Pais se esqueceram da forte expressão pessoal do Yahweh da Bíblia Hebraica. Moltmann afirma que no sacrifício de Cristo na cruz o que ganha destaque não é a ira de Deus derramada sobre Cristo, como afirmou a teologia medieval e mesmo a reformada, nem tampouco o pagamento de uma divida jurídica como afirmou Anselmo, mas toda a ênfase deve estar no amor de Deus que expressou através de seu auto-rebaixamento, incluindo-se a si mesmo entre as criaturas, e de seu posicionamento como vitima abandonada na cruz, compartilhando o sentimento de abandono com todas as vitimas humanas que passam por esta situação, é desta maneira que ele se mostra Todo-Poderoso e não da maneira despótica que o ser humano costuma imaginar.

3. O Espírito Santo como Fonte da Vida: em suas obras pneumatológicas: A Fonte da Vida, o Espírito Santo e a teologia da Vida; O Espírito da Vida: Uma Pneumatologia integral e A igreja no poder do Espírito Santo. Ele apresenta a Pessoa do Espírito Santo não como uma forma de onipresença de Deus, mas sim como a Fonte da Vida, isto quer dizer aquele que apesar de sua essência pessoal, se manifesta através da força que anima e mantém tudo o que existe, dialogando com as teologias panenteistas de teólogos que lutam em defesa da natureza. Além disto, os carismas que estão intimamente relacionados com a pessoa do Espírito Santo devem operar para que assim cooperem para o adiantamento das realidades que se concretizarão plenamente no Reino de Deus. O Espirito é a força que anima a vida e para a vida de maneira que sempre se opõe a políticas ditatoriais ou sexistas e a destruição do meio ambiente.

Este breve descrição da teologia de Jürgen Moltmann é indispensável para que se conheça seu testemunho, pois ambos: testemunho e teologia estão intimamente relacionados, talvez seja por isso que em suas obras Moltmann mais de uma vez cita o teólogo Gustavo Gutierrez quando diz: “só a prática confirma a teoria”.

Jürgen Moltmann nasceu em Hamburgo no ano de 1926, membro de uma família secularizada da Alemanha, neto de um grão-mestre da maçonaria. Em sua juventude se fascinou pelos recentes desenvolvimentos da física e galgou a carreira de físico e matemático, contudo sua entrada na faculdade foi postergada devido a sua filiação ao exercito alemão aos seus dezesseis anos. Ao partir para a guerra levou consigo apenas os poemas de Goethe e as obras de Nietzsche.

No campo de batalha Moltmann conheceria os terrores da morte, vendo muitos dos seus companheiros sendo mortos e sua cidade sendo destruída em 1943. Em seguida a destruição de sua cidade Moltamann sobrevive e é levado a um campo de prisioneiros de Guerra na Bélgica.

Durante o ataque a sua cidade, Moltmann participou das forças antiaéreas e viu um companheiro ser vitimado ao seu lado e sua vida escapar por pouco. Ele chegou a afirmar: “Aquela bomba era para mim”. Conforme afirma o próprio Moltmann sua teologia começa justamente neste momento, pois foi aí que ele teve o ponto mais importante de sua experiência de conversão, assim como Agostinho tivera sua experiência no jardim e Lutero durante a tempestade quando cai um raio ao seu lado ou quanso subia de joelhos as escadarias de uma cátedral de Roma. Em todos os três a experiência é semelhante a uma espécie de insight, uma luz que repentinamente se acendeu para eles.

No caso de Moltmann ao ver seu amigo ser exterminado por uma bomba ao seu lado ele clama: “Meu Deus onde estás?” embora até então nunca tivesse acreditado nesse Deus. Está experiência, e toda a crise psicológica e espiritual que ele enfrenta posteriormente, está descrita detalhadamente na obra a Fonte da Vida: o Espírito Santo e a Teologia da Vida (2002, P.10 ss.).

Após ver seu amigo morrer diante si, sua cidade estar devastada e com mais de 40.000 concidadãos mortos, contemplar os terrores dos campos de concentração de Auschwitz-Birkenau e sua particular experiência depressiva de prisioneiro de guerra, chegaria a perguntar-se: “Por que eu sobrevivi? Não seria melhor que eu também tivesse morrido?” E também afirmou: “é preciso suportar o fardo do luto”; “A sobrevivência não é apenas uma dádiva mas uma incumbência”; “É bom viver porém é duro ser um sobrevivente.”

Como prisioneiro de guerra esteve primeiramente na Bélgica no “miserável acampamento 2226 em Zedelgem”, depois na Escócia em Kilmarnock e finalmente na Inglaterra em Norton Camp a partir de julho de 1946. Para descrever sua experiência Moltmann cita Gn 32, 25-32, onde está descrita a batalha de Jacó com o Anjo. Pois “luta” era a melhor definição para a situação a qual enfrentava.

Em uma obra que é fruto de sua madures teológica: O Espírito da Vida: Uma Pneumatologia integral (versão acadêmica da obra A Fonte da Vida: o Espírito Santo e a teologia da vida.), Moltmann discorre sobre a teologia da “experiência” (1999, PP 29-47), embora ele relacione o assunto com os grandes expoentes da teologia liberal e pós-liberal como Scheleimacher e Barth, não é isto que nos interessa aqui, mas sim sua compreensão de que a experiência, como tal, é algo que está desvinculado ao tempo, todas as experiências permanecem em nós embora nem sempre nos damos conta disto.

Talvez, Moltmann tenha começado a se dar conta deste fato no Acampamento de prisioneiros quando permanecia acordado a noite e quando perdeu as esperanças, pois os poemas de Goethe e seu Fausto não lhe diziam mais nada, seus heróis: Einstein e Heisenberg e seu sonho de ser matemático e físico não tinham mais sentido nenhum. No acampamento ele se perguntava: “Para que tudo isso?” As sensações da guerra continuaram a aterrorizar-lhe grandemente por pelo menos mais cinco anos, também ocorreu-lhe a perca de sentimento por sua pátria, e ao ver as fotos de Auschwitz-Birkenau notou pelo que ele tinha batalhado.

Conforme ele afirma, foram dois os elementos que transformaram sua vida, a Bíblia e o encontro com pessoas. Através da Bíblia ele se identificou com os salmos de lamentação como o 39 e principalmente com a narrativa da paixão, onde Cristo fica abandonado na Cruz e clama: “Meu Deus por que me abandonaste?” Moltmann passou a crer que alguém compartilhava sua dor e o compreendia, e embora não tomasse uma decisão como se exigia dele, “Jesus o encontrou no buraco negro de sua alma”, e em suas entrevistas mais recentes continuaria a afirmar que foi Jesus que o encontrou e não ao contrário.

A atitude de pessoas, como os mineiros e suas famílias de Kilmarnock, também lhe surpreendeu muito, pois foi tratado por eles com cordialidade, os prisioneiros alemães receberam o perdão mesmo sem pedirem, isto lhes possibilitou a sobrevivência a pesar das terríveis lembranças e do remorso. A primeira conferencia da Missão Cristã Universitária viria a acentuar ainda mais esse sentimento de perdão, pois nesse evento os ex-guerrilheiros puderam fazer refeições, orações, cantar e ser aceito como irmãos por jovens cristãos do mundo inteiro. Contudo um outro encontro viria a selar o seu perdão, seria o encontro com jovens holandeses, Moltmann temeu porque participou de ataques aéreos a Holanda, mas aqueles jovens vieram ali para um encontro de amizade que faziam questão de ter com os ex-guerrilheiros, e durante a conversa compartilharam de seus sentimentos de forma muito amistosa.

O Norton Camp, um acampamento que servia como modelo para o mundo, proporcionou muito para a recuperação dos ex-guerrilheiros, pois oferecia toda uma infra-estrutura de reabilitação, possuía uma biblioteca doada pela Associação de Moços Cristãos, a qual possuía obras de variados temas, após as experiências referidas Moltmann aproveitou muito do que a biblioteca tinha a oferecer principalmente os livros de teológicos e cristãos, ali mesmo ele se decidira que seria um pastor, começaria um estudo intenso na escola teológica que funcionava com voluntários no acampamento, ele chega a afirmar que sua atividade intelectual nunca mais foi tão intensa como nesse período, pois o acampamento lhes oferecia um espaço de isolamento do mundo e do tempo (já que eles eram proibidos de ter relógio) semelhante a um monastério.

Assim Moltmann conclui seu testemunho afirmando que o seu destino cruel como prisioneiro de guerra “foi transformado em benção de riqueza imerecida” e afirma que como Jacó no lugar de Iaboq viu Deus face a face, e embora “mancando de uma coxa”, saiu abençoado. Reafirmando o que foi dito a cima a teologia de Moltmann se confunde com sua própria vida, pois como afirma Leonardo Boff “toda ela se orienta para a prática.”

BIBLIOGRAFIA.

ALECRIM DE ARAUJO, Giovanni Campagnuci. Vida, esperança e justiça. IN

MATOS, Alderi de Souza. Fundamentos da Teologia Histórica. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.

MOLTMANN, Junger. A fonte da vida. São Paulo: Loyola, 2002.

MOLTMANN, Junger. O Espírito da vida: uma pneumatologia integral. Petrópolis: Vozes, 1998.

MOLTMANN, Junger. Teologia da Esperança: estudos sobre os fundamentos e as conseqüências de uma escatologia cristã – 3ª edição. São Paulo: Teológica / Edições Loyola, 2005.

MOLTMANN, Junger. The blessing of Hope: The theology of Hope and the full gospel of life.

MOLTMANN, Jurgen. El Dios cricificado. Salamanca: Sigueme, 1975.

MOLTMANN, Jurgen. O caminho de Jesus: uma cristologia com direções messiânicas. São Paulo: Academia Cristã, 2009.

SITES

http://juninhoacura.blogspot.com/2009/01/entrevista-com-jrgen-moltmann.html

http://translate.google.com/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://en.wikipedia.org/wiki/J%25C3%25BCrgen_Moltmann&ei=dyTnSbbRMtCJtgeW7KDEBQ&sa=X&oi=translate&resnum=1&ct=result&prev=/search%3Fq%3Djurgen%2Bmoltmann%26hl%3Dpt-BR%26lr%3D%26rls%3Dcom.microsoft:pt-BR:%26rlz%3D1I7ADBF%26sa%3DG

http://prasinal.blogspot.com/2007/05/jrgen-moltmann-uma-entrevista-ler.html

Pesquisa realizada dia 23 de abril de 2009